Tecnologia da APTA pode reduzir em 95% a quantidade de água usada na produção de peixes e hortaliças

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A Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) apresenta na Agrishow 2015 um sistema de produção com integração de lambari e hortaliças. O sistema se chama aquaponia e está sendo introduzido pela APTA no Estado de São Paulo. Com a tecnologia, é possível reduzir em até 95% a quantidade de água necessária para a produção de peixe e diminuir em 80% o uso de agrotóxicos aplicados nas hortaliças. O lambari agrega mais uma vantagem ao sistema: precisa de metade do tempo que a tilápia, por exemplo, para ter tamanho comercial. Os produtores poderão conhecer este novo sistema de produção no estande da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, durante a Agrishow 2015, que acontece de 27 de abril a 1º de maio de 2015, em Ribeirão Preto, interior paulista.

No estande da Secretaria de Agricultura, o público poderá conhecer o sistema em uma estufa de 230m². A estrutura, construída em parceria com a empresa Plantfort, também será usada nas pesquisas da APTA. Na unidade de pesquisa da APTA, em Ribeirão Preto, foram instalados 28 sistemas aquapônicos experimentais. Cada sistema consiste em um canteiro para hortaliças com 2m², acoplado ao tanque de lambaris com recirculação da água e filtragem independente. Na Agrishow, estarão expostas 12 dessas unidades experimentais. Segundo o pesquisador da APTA, Fernando André Salles, nessas instalações serão realizadas pesquisas sobre economia da água. “Pretendemos quantificar a necessidade de água para a produção de peixes e hortaliças em diferentes sistemas aquapônicos, sob as condições climáticas do Estado de São Paulo”, afirma o pesquisador da APTA, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

O projeto de aquaponia da APTA consiste em utilizar os resíduos do sistema de produção do lambari para o cultivo hidropônico. Com isso, é possível cultivar peixes e plantas consumindo até 95% menos de água. “Na aquaponia, não há necessidade de renovação de água, pois as plantas capturam o excesso de nutrientes. A perda de água dentro de um sistema aquapônico em condições normais se dá unicamente por evaporação e transpiração das plantas. A intensidade da perda varia conforme o microclima onde o cultivo está instalado”, afirma Salles.

A ideia dos pesquisadores é introduzir o sistema em São Paulo, por ser um Estado bastante populoso e possuir demanda crescente por alimentos e por água. A tecnologia é utilizada em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália. “A agricultura é uma atividade extremamente dependente de água para conseguir adequada produtividade de alimentos, o que acaba competindo com recursos hídricos para a população urbana. Qualquer técnica que consiga reduzir a quantidade de água na produção de alimentos é extremamente bem-vinda”, afirma Salles. O uso de lambari para o sistema também é interessante, já que 70% da produção nacional deste peixe abastecem o mercado paulista. O lambari é usado, principalmente, como isca viva na pesca esportiva.

O novo conceito de produção agrupa todas as vantagens da produção intensiva de lambari com a hidroponia, em que as plantas não têm contato com o solo e são cultivadas em água e/ou substrato, dentro de estufas. Neste ambiente, há diminuição na ocorrência de pragas e doenças e proteção de intempéries climáticas e ataques de aves. Os resultados são plantas com melhor qualidade e redução de até 80% no uso de agrotóxicos. Em alguns casos, o controle químico é totalmente dispensado.

A principal diferença entre o uso de lambari e de outros peixes é o tempo  necessário para atingir tamanho comercial. O lambari precisa de três a quatro meses, enquanto espécies como a tilápia, precisam de oito meses. “O resultado, em termos de produção, é a possibilidade de ter maior número de ciclos ao longo do ano”, afirma o pesquisador da APTA, Fábio Sussel.

Soma-se a isso, a redução do tempo de cultivo das hortaliças, facilitação da mão-de-obra e reaproveitamento dos nutrientes presentes na solução aquosa. Para se ter ideia, o custo de fertilizante para produzir mil plantas está estimado entre R$ 30,00 e R$ 40,00. O custo total de produção por planta na hidroponia varia de R$ 0,20 a R$ 0,40. Para o consumidor, a vantagem está no maior tempo de conservação das folhosas e facilidade na higienização, pois não há contato com o solo.

Segundo Sussel, os pesquisadores da APTA estão, a princípio, propondo a produção aquapônica em módulo familiar, em compartimentos de 1m³, onde são usados 600 litros de água e é possível produzir 400 lambaris e três  ciclos de hortaliças, em três meses. Esse modelo representaria uma opção prática, moderna e sustentável de produzir alimentos de qualidade, no próprio quintal. “No entanto, em sistemas comerciais de aquaponia, o lambari é mais rentável quando comparado com outras espécies, por ter valor agregado por unidade, já que é comercializado como isca viva para a pesca esportiva, não havendo perdas e nem custos com abate e processamento”, explica.

Entenda como funciona o sistema

No sistema aquapônico é possível produzir qualquer hortaliça de fruta ou folhas, além de outras espécies de plantas de valor econômico, como plantas aromáticas e medicinais. “Não há restrição quanto às espécies de peixes, desde que sejam adaptadas a condições de confinamento, como as trutas e as tilápias”, diz Salles.

O pesquisador explica que a proteína presente na ração é metabolizada para formação do tecido muscular do peixe, porém, parte é excretada diretamente pelas brânquias dos animais na forma de amônia ou é perdida por meio das fezes. A amônia, mesmo em baixas concentrações, é tóxica para o peixe. “No sistema de produção aquapônica, a amônia presente na água passa por um filtro biológico onde ocorre a nitrificação, transformando-a em nitritos e em nitratos, este último produto, de baixa toxicidade para os peixes, é prontamente absorvido pelas plantas na produção hidropônica”, explica.

Além dos nitratos, a mineralização dos dejetos dos peixes fornece às plantas boa parte dos elementos necessários ao crescimento, como o fósforo, cálcio e ferro, entre outros. Com isso, não há a necessidade do uso intensivo de fertilizantes químicos.

A tecnologia poderá ser utilizada por pequenos, médios e grandes produtores. Os pesquisadores da APTA trabalham em conjunto com técnicos de extensão da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) para fomentar e divulgar os resultados das pesquisas, que devem começar a ser disponibilizados em dois anos.

Produção de lambari

Estima-se que a produção nacional de lambari totalize 140 milhões de unidades, por ano. São Paulo é o maior produtor, com 90 milhões por ano, seguido de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e Paraná. Praticamente 100% da produção são destinados ao mercado de isca viva para pesca esportiva e amadora, atividade que vem crescendo em ritmo acelerado nos últimos anos. “Apesar de historicamente os rios de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul terem fama de piscosos, o grande mercado de pesca esportiva e amadora hoje fica em São Paulo, especialmente para pesca de corvina e tucunaré. Cerca de 70% da produção nacional de lambaris são usados para abastecer o mercado paulista”, explica Sussel. O pesquisador estima que a APTA responda, diretamente, por 60% da atual produção paulista de lambaris.

De acordo com o pesquisador, o produtor de lambari recebe, na propriedade, cerca de R$ 0,17 pela unidade de peixe e tem custo de produção de R$ 0,06. O intermediário revende para as pousadas por R$ 0,25 a R$ 0,30 e estas revendem para o pescador esportivo por R$ 0,50 a unidade. “Há cinco anos, a lambaricultura se profissionalizou. Mesmo com aumento expressivo da produção ano a ano, nunca foi possível atender à demanda, já que a pesca esportiva e amadora cresce em maior velocidade”, afirma Sussel. Segundo o pesquisador, mesmo com o considerável aumento da produção, é comum faltar lambaris nas pousadas em feriados prolongados.

Texto: Carla Gomes (MTb 28156) e Fernanda Domiciano

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