Sistemas agroflorestais são desenvolvidos por pesquisadores da APTA

SAFVARZEA GUANANDI INHAME miniA Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), realiza pesquisas com o Sistema Agroflorestal (SAF). O foco do trabalho é contribuir para reduzir a pressão do desmatamento e aumentar a conservação de solo e da água na bacia hidrográfica do Paraíba do Sul. O trabalho está sendo conduzido pelo Polo Regional Vale do Paraíba, em Pindamonhangaba, interior paulista.

Os experimentos da APTA foram instalados em área de 2,6 hectares na Fazenda Coruputuba, em agosto de 2011. As espécies arbustivas e arbóreas selecionadas foram as leguminosas guandu, sesbânia, flemíngia, ingá, anjico, pau-viola, mamica-de-porca, urucum, boleira, talauma, imbirussú, ipê-rosa, ipê-amarelo-do-brejo, sendo que muitas arbóreas são aproveitáveis como recurso madeireiro, tendo apresentado taxas de crescimento de 20% ao ano, muito superiores às do guanandiárvore promissora para madeira de lei adaptada ao ambiente inundávelO trabalho foi desenvolvido com o objetivo de restaurar as terras baixas do Vale do Paraíba. “É aplicado às terras baixas das bacias hidrográficas, essenciais para reforçar a recarga hídrica e o processo de laminação, evitando-se o carreamento de sedimentos e nutrientes nas enxurradas e conservando as propriedades físico-químicas dos solos”, explica o pesquisador da APTA,  Antonio Devide.

O projeto da visa à geração de renda com produtos a partir da diversificação de cultivos em plantios de guanandi, restauração ambiental em várzea e terraço fluvial. Trata-se de um estudo de caso realizado na centenária Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba. O trabalhou contou com o apoio de profissionais da APTA, do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia e Ciência dos Solos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EmbrapaAgrobiologiaMeio Ambiente e do Centro de Produção em Agricultura Orgânica da Pesagro-Rio () nas áreas de adubação verde, gestão ambiental e fitossanidade.

O sistema desenvolvido pela APTA seguiu a metodologia participativa com o objetivo de incentivar os agricultores na recuperação de áreas ciliares e terras baixas, mediante o estabelecimento de cultivo de espécies agrícolas, forrageiras, florestais nativas com o guanandi, tendo como substrato dessa pesquisa a dinâmica socioambiental, econômica e cultural da Fazenda Coruputuba“Os sistemas agroflorestais trazem benefícios diretos e indiretos, com retorno financeiro garantido, já que ainda que um dos componentes tenha sua produtividade comprometida em função de uma possível competição ou por problemas inerentes às variações climáticas, a produtividade global é superior, compensada pelos demais componentes do sistema”, afirma Devide.

A pesquisa visou estabelecer as bases para a produção de madeira de lei nativa com diversidade de cultivos associados, testando-se dois SAF em gradação de densidade de plantio: SAF Simples, com cultura anual nas entrelinhas, como mandioca e a araruta em sucessão nos terraços e o inhame na várzea, e SAF Biodiverso, em que, além das culturas anuais nas entrelinhas, associam-se diversidade de espécies, como a palmeira juçara, a bananeira Conquista e diversidade de leguminosas e arbóreas nativas.

Os dois tipos de SAF, mais o sistema com guanandi puro, foram analisados na pesquisa, que teve como objetivo a conversão agroflorestal, ou seja, a obtenção de outros produtos com valor econômico, já que a madeira de lei de guanandi requer no mínimo 20 anos para ser abatida. Também foi avaliada a restauração do ambiente, pois, a ocupação dos terraços e várzeas há muitos séculos resultou na degradação da cobertura nativa de Mata Atlântica, inclusive em áreas ciliares e, consequentemente, declínio das propriedades físicas dos solos.

O plantio foi iniciado no final de julho de 2011. Os sistemas perceberam os efeitos de anos muito chuvosos e muito secos2013 a 2015. “Foi surpreendente a estabilidade dos sistemas. Mesmo sob as condições de uma das maiores estiagens já registradas, os SAF mantiveram-se produtivos, quando muitos agricultores estavam perdendo toda a sua lavoura” afirma Devide.

Vantagens do sistema

bem diferente do modelo de monocultura do eucalipto, principal atividade de reflorestamento na região do Vale do Paraíbavem trazendo sérios impactos na produção de água, na redução de postos de trabalho impactando a produção de alimentos e renda, além da contínua degradação dos solos e desflorestamento de matas de galeria e capoeiras, que são as formações pioneiras da regeneração da Mata Atlântica. Os sistemas agroflorestais com diversidade de espécies nativas para madeira nativa podem representar uma das melhores opções de investimento para a formação da reserva legal e para a restauração ambiental. Eles geram produtos madeireiros e não madeireiros, aportam nutrientes e reforçam a recarga hídrica. Os SAF são mais estáveis do que os sistemas de monocultura, pois promovem maior eficiência no uso dos recursos naturais, principalmente do solo e da água, por meio do aumento da biodiversidade. No aspecto empresarial, contribui para a estabilidade de rendimentos por meio da diversificação de produtos, como madeira, tubérculos, grãos, frutos, e diversidade de aporte de nutrientes via a poda de leguminosas consortes. “O sistema objetiva a estabilidade da produção face aos extremos climáticos e oscilações econômicas, além da melhoria dos indicadores socioeconômicos e ambientais restaura as funções ecológicas de áreas ciliares e várzeas”, explica o pesquisador da APTA.

Integrando a atividade de silvicultura e agricultura obtém-se vantagens para o produtor, que terá maior diversidade de produtos. Segundo Devide, o melhor uso do solo, inerente ao SAF, reduz a pressão sobre as áreas florestadas. A fixação de carbono é superior em comparação aos sistemas tradicionais, já que seu uso gera equilíbrio, possibilitando maior fixação de carbono na vegetação e no solo em relação aos sistemas isolados, em que são trabalhadas as monoculturas. As culturas anuais vão sendo substituídas por outras mais tolerantes ao sombreamento. A fruticultura também pode se desenvolver por muitos anos, inclusive restaurando a população da palmeira juçara, que está em risco de extinção na Mata Atlântica, beneficiando a fauna.

Devide, os ganhos indiretos, como a conservação do solo e da água, nem sempre são mensurados, mas são superiores em comparação às monoculturas. “Os valores monetários devem ser calculados para uma determinada realidade agrária considerando, além de fatores socioculturais, o ambiente. Outra questão que precisa ser trabalhada para incentivar a adoção de SAF é o Pagamento por Serviços Ambientais, que poderia diminuir as distorções que por ventura podem ocorrer em função da menor produtividade de uma determinada cultura”.

Retorno dos SAF inicia-se com a colheita das culturas consortes

“No SAF Biodiverso, introduzimos, além da cultura anual, diversidade de espécies. Neste caso, o feijão guandu, colhido aos 12 meses; a bananeira BRS Conquista, com a primeira safra de bananas com 590 dias após o plantio, seguindo-se, a partir de então, colheitas anuais de todos os componentes”, explica o pesquisador. No SAF Biodiverso espera-se obter os frutos da palmeira juçara a partir dos oito anos, além de madeira e produtos não florestais de outras espécies introduzidas nas entrelinhas do guanandi.

Nos SAF a obtenção de produtos é estratégica, pois, gera renda até que o guanandi seja cortado. O uso do sistema melhora os níveis de fertilidade do solo e resulta no controle da vegetação espontânea indesejável, principalmente da braquiária. Verificou-se também, maior ocorrência de morcegos dispersores nos SAF Biodiversos, resultando no maior número de poleiros naturais sob as folhas das bananeiras, onde os frutos do guanandi foram despolpados e dispersos, recolonizando a área.

Em 27 de agosto de 2015, a APTA realizou uma aula técnica sobre “Sistemas agroflorestais com Guanandi”, em Pindamonhangaba. Durante o evento foram apresentados os resultados de quatro anos de pesquisa com SAF e guanadi. A diversificação dos cultivos a cultivar de banana BRS Conquista, resistente à sigatoka negra e ao mal do panamá. A diversificação também incluiu palmeira juçara, mandioca, araruta, inhame e diversas leguminosas e arbóreas nativas.

Por Carolina Neves e Fernanda Domiciano

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