Biotecnologia em pesquisas com truta tem apoio da FAPESP

A adoção de modernas ferramentas de pesquisas, como a biotecnologia, traz para a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Campos do Jordão, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), a possibilidade de reduzir o tempo para chegar a resultados desejados e baixar custos de execução. Em 2014, a única unidade brasileira de pesquisa com truta completou 50 anos.

Na pesquisa sobre controle do sexo das trutas, será utilizado o gene sdY, descoberto em 2012, na França, que agiliza a identificação do sexo de trutas e viabiliza o resultado em 90 dias. O método adotado atualmente requer27 meses para chegar ao mesmo resultado. O sdY foi o terceiro gene de determinação sexual em peixes descoberto no mundo.

“Com o uso desse gene, podemos identificar aos três meses os animais masculinizados com genótipo XX e, assim, eliminar aqueles machos que têm o gene masculino. Com o uso do teste de progênie – técnica usada atualmente – é possível fazer essa identificação, após 27 meses”, explica Ricardo Shohei Hattori, pesquisador do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que em 2014 iniciou os trabalhos na Unidade. Hattori fazia parte do projeto de pesquisa na universidade Tokyo University of Marine Science and Technology (TUMSAT), em Tokyo, que descobriu o gene de determinação sexual no peixe-rei.

Nesse estudo, os pesquisadores visam identificar se o tratamento hormonal para a masculinização de fêmeas genotípicas foi realizada com sucesso, ou seja, se todos os animais do lote são machos XX – que só gerarão fêmeas.

Outra vantagem dessa tecnologia é a redução dos custos de cultivo para o produtor, que pode eliminar mais rapidamente os peixes indesejados e gastar menos em ração. “Tudo será possível por meio de um teste de PCR", diz Hattori. A previsão é que os resultados fiquem prontos em três horas, tempo estimado para a realização da análise da amostra levada pelo truticultor à APTA. “Esta é uma tecnologia inovadora”, comenta o jovem pesquisador de 33 anos.

Esta é uma das três linhas de pesquisa, dentro do novo projeto da Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da APTA apoiado pela FAPESP. As outras duas envolvem a caracterização genética das linhagens dos salmonídeos da UPD e transplantes de células germinativas.

Para a realização dos projetos, foi montado um laboratório de biotecnologia na Unidade, em Campos do Jordão. Os recursos FAPESP totalizam R$ 600 mil para infraestrutura, aquisição de equipamentos e materiais de consumo. O projeto prevê ainda intercâmbio de alunos com a universidade japonesa TUMSAT.

Hattori explica que a salmonicultura no Brasil é realizada em áreas montanhosas da região Sul-Sudeste e a produção nacional é relativamente pequena, atendendo principalmente à demanda de restaurantes e hotéis locais. “Tendo em vista o crescente aumento da demanda por ovos embrionados e alevinos, impulsionado pelo desenvolvimento de novos produtos, como a truta salmonada e o caviar de truta, torna-se necessário desenvolver novas linhagens, otimizar a produção dos estoques atuais, além de direcionar os cruzamentos com base em marcadores genéticos”, afirma.

Caracterização e preservação das linhagens de truta

A caracterização e preservação das linhagens de truta são o foco das outras duas linhas de pesquisa da APTA desenvolvidas com uso de biotecnologia. Ao caracterizar a linhagem é possível identificar, por exemplo, as trutas que se reproduzem de forma precoce ou tardia, o que associado a um processo de seleção poderá promover a ampliação o período de desova dos peixes e beneficiar a cadeia de produção.

A truta desova uma vez ao ano, no período de maio a agosto. O fato de a disponibilidade de ovos embrionados e/ou alevinos ocorrer em apenas alguns meses do ano, implica na necessidade de se controlar o crescimento dos peixes, para produzir trutas de tamanho uniforme, durante todo o ano. O manejo da taxa de arraçoamento e a prática de triagens periódicas são alternativas empregadas para atender as exigências do mercado. Este manejo resulta no uso ineficiente das instalações e da água, com situações de super ou sub utilização dos tanques em determinadas épocas do ano, reduzindo a rentabilidade de uma truticultura comercial. Estes problemas poderiam ser minimizados com a uso da biotecnologia, estabelecendo linhagens para produção de ovos fora da temporada normal, permitindo explorar melhor o potencial de crescimento dos peixes e facilitando o manejo adotado no escalonamento de produção da truta, esclarece a pesquisadora Yara Tabata.

Na Unidade da APTA existem seis linhagens de salmonídeos. “Uma delas, a denominada de Campos do Jordão, é adaptada para a região da Serra da Mantiqueira”, diz a pesquisadora.

Segundo Hattori, outro ponto importante é a manutenção dessas trutas. As regiões montanhosas – ideais para a truticultura — são áreas passíveis de desastres naturais, como desmoronamento, por exemplo, que podem resultar na perda de linhagens importantes, como a de Campos do Jordão.

O pesquisador explica que, atualmente, a caracterização das linhagens de truta é feita por meio da análise da morfologia e da cor do peixe. “Esse método de visualização não é eficiente, sobretudo em animais em fase embrionária”, explica.

Conservação

Aliada à caracterização, o projeto de pesquisa prevê a preservação dessas linhagens, por meio do congelamento das células germinativas dos animais em nitrogênio líquido. “Congeladas, essas células formam um banco de germoplasma. Caso haja um problema que comprometa a continuidade da linhagem, podemos implantar essas células em outro peixe, que gerará alevinos da linhagem em questão. Esta técnica é chamada de barriga de aluguel”, explica o pesquisador da FAPESP. Células congeladas de um único organismo podem gerar tanto gametas femininos quanto masculinos, garantindo a continuidade dessas linhagens. O procedimento será feito inicialmente com truta, mas o pesquisador pretende ampliar este estudo para outras espécies nativas.

Projeto Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes

A finalidade do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes (JP-FAPESP) é criar oportunidades de trabalho para jovem pesquisador ou grupo de jovens pesquisadores de grande potencial, de preferência em centros emergentes de pesquisa, como no caso de Hattori, que terminou seu pós-doutorado no Japão, e atua agora na Unidade de pesquisa da APTA, instituição com tradição de pesquisa.

Segundo informações da FAPESP, com este programa, espera-se fortalecer o sistema estadual de pesquisa, favorecendo a nucleação de novos grupos de estudo, que atuem em temas modernos e com inserção internacional, ainda não cobertos por pesquisadores no Estado de São Paulo.

Texto: Carla Gomes (MTb 28156) e Fernanda Domiciano.

Assessoria de Imprensa – APTA

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