PERIGO CRESCENTE

08/11/2006

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP - O envenenamento por agrotóxicos atingiu mais de 14 mil pessoas em 2003, causando 238 mortes. Dez anos antes houve 6 mil ocorrências, com 161 mortes. O crescimento expressivo das intoxicações foi identificado em estudo realizado pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), coordenado pelo Centro de Informação Científica e Tecnológica (Cict) da Fiocruz.

Segundo Rosany Bochner, coordenadora do Sinitox, no período abordado pela pesquisa (1993-2003) o crescimento considerável do consumo de agrotóxicos no país transformou esses produtos na terceira maior causa de intoxicação no país, atrás apenas dos medicamentos e animais peçonhentos.

“Os números podem ser muito maiores, porque os casos registrados são, geralmente, de intoxicação aguda, com sintomas imediatos. É difícil captar a intoxicação crônica, que se manifesta a longo prazo”, disse Rosany à Agência FAPESP.

O Sinitox dá assistência à população, em casos de intoxicação, em 36 centros espalhados em 19 Estados, com coordenação operacional da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O estudo foi realizado a partir das informações obtidas nesses centros. O resultado não dá conta de todas as ocorrências, já que não há centros em todos os Estados e a notificação não é obrigatória.

“Como a prioridade nos centros é o atendimento, os dados estatísticos ficam em segundo plano e, às vezes, há falta de informações precisas. Mesmo assim, o estudo foi possível a partir da análise de uma série histórica compilada anualmente”, disse Rosany. O estudo considerou os dados obtidos até 2003, uma vez que não houve consolidação das informações posteriores.

Consumo exagerado

No estudo, o Sinitox trabalhou com 17 agentes tóxicos divididos em quatro categorias: de uso agrícola, uso doméstico, uso veterinário e raticidas. No período analisado, os casos de envenenamento por raticidas cresceram 54% na região Sul, 206% no Centro-Oeste e 350% no Norte do país. No Nordeste, os agentes tóxicos que mais registraram crescimento foram os de uso agrícola, com uma alta de 164%. No Sudeste, os acidentes aumentaram principalmente com produtos veterinários: 309%.

O Sinitox aponta para a relação entre faixa etária e os quatro tipos de intoxicação. As crianças com idade entre 1 e 4 anos são as maiores vítimas de envenenamento por agrotóxicos de uso doméstico (28,7%), por produtos veterinários (21%) e por raticidas (23,9%). Já os adultos jovens, na faixa de 20 a 29 anos, são os mais acometidos pelas intoxicações por produtos de uso agrícola (23,2%).

Rosany acredita que o consumo exagerado de agrotóxicos é a razão fundamental para o aumento em todos os casos, aliado ao crescimento demográfico e ao mau uso dos produtos. No campo, segundo a pesquisa, o risco de intoxicação é o dobro do registrado nas áreas urbanas. “Sabemos que o trabalhador do campo não está preparado para lidar com esses agentes tóxicos de alta letalidade, pois tem baixa escolaridade, más condições de trabalho e não é orientado”, disse.

Ameaça clandestina

O caso mais grave, segundo Rosany, é o do produto conhecido popularmente como “chumbinho”, utilizado indevidamente como raticida. “O chumbinho é o grande fantasma hoje. Trata-se de um agrotóxico de uso agrícola que, há alguns anos, começou a ser utilizado como raticida. É péssimo para essa finalidade, mas acabou criando um mito que tem matado muita gente”, diz.

Utilizado em lavouras de café e batata, o chumbinho tem toxicidade tão alta que precisa ser enterrado para a aplicação agrícola. “Levam esse produto para a cidade, fracionam em pacotes pequenos e vendem até no comércio ambulante. Aqui no Rio de Janeiro, o IML recebe pelo menos um caso por semana relacionado a esse produto. No Nordeste o quadro é trágico – há morte quase todos os dias”, alertou Rosany.

A coordenadora do Sinitox explica que em casos de intoxicação é necessário procurar serviço médico. Em caso de dúvidas e esclarecimentos, a população pode entrar em contato com o Disque-Intoxicação da Anvisa. O telefone é 0800-722-6001, a ligação é gratuita e o usuário é atendido por uma das 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), presente em 19 Estados.

Mais informações: www.fiocruz.br/sinitox.

Fonte:
Agência FAPESP

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