CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL POR MERCÚRIO REQUER ATENÇÃO

01/11/2006

Pesquisador do Pólo Regional de Desenvolvimento Tecnológico dos Agronegócios do Centro Sul, com sede em Piracicaba (SP) e vinculado à APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), participa, com o apoio da FAPESP, de conferência internacional sobre contaminação por mercúrio.


Antônio Carlos Simões*

Pesquisas sobre contaminação ambiental por mercúrio (Hg) são significativamente motivadas pelos riscos que esse metal pesado representa à saúde e por sua potencial ocorrência em organismos aquáticos, principalmente peixes e moluscos, ingeridos pelo homem. Estudos dessa natureza são o primeiro passo para o entendimento dos caminhos da acumulação do mercúrio e dos efeitos da ingestão de itens de dieta contendo Hg, desde antes do nascimento (Problemas neurológicos são observados no feto, quando a mãe é exposta ao mercúrio, mesmo em baixas concentrações, durante a gravidez.) e nos demais anos da vida dos seres humanos expostos ao elemento.

Efeitos subletais, observados pela presença acentuada desse metal pesado, incluem, por exemplo, a disfunção de órgãos vitais, a imuno-supressão e doenças cardiovasculares, diz o pesquisador José Roberto Ferreira (ferreira@cena.usp.br), especialista em química ambiental, que participou, em agosto, da “8th International Conference on Mercury as a Global Pollutant”, realizada em Madison, Wisconsin, Estados Unidos, e reunindo cerca de 1.200 participantes de 43 países.

No referido evento, o pesquisador apresentou dados de um trabalho desenvolvido nas represas de Barra Bonita e Bariri, com o apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), sobre a ocorrência de Hg total em fezes de lontra (L. longicaudis), animal que ocupa o topo de cadeia alimentar aquática. Esse trabalho é parte da dissertação de Mestrado de Carla Josef Ferreira, defendida em dezembro de 2005, a qual foi orientada por José Roberto no curso de pós-graduação em Ciências do CENA (Centro de Energia Nuclear na Agricultura)/USP, www.cena.usp.br

Para o pesquisador, a exposição ao mercúrio pode ser substancial em muitos ambientes aquáticos, sobretudo para organismos que ocupam o topo de cadeias alimentares, pois a contaminação por esse elemento tem degradado recursos pesqueiros de águas continentais e marinhas (costeiras e distantes da costa) de vários países.

Em espécimes contaminados, o metal está presente sob a forma de “Metil-mercúrio” (CH3Hg), composto altamente tóxico, que atravessa as membranas biológicas dos organismos a ele expostos, acumulando-se no indivíduo e depois, por conseqüência, em toda a cadeia trófica. Segundo Ferreira, pode-se afirmar que a principal via de incorporação do Hg em seres humanos é o consumo de peixes e frutos-do-mar. Ele lembra que a entrada de mercúrio em águas superficiais pela deposição atmosférica é significativa e favorece a formação do “Metil-mercúrio” encontrado em peixes.

Pesquisadores afirmam que, nas últimas duas décadas, as emissões de mercúrio relacionadas a atividades humanas foram responsáveis por um aumento, de três a cinco vezes, da concentração dessa substância, em relação à quantidade existente na época pré-industrial, elevando muito a taxa de deposição de Hg sobre a superfície terrestre.

Conseqüências

De modo geral, pouco se discute sobre as conseqüências socioeconômicas da poluição mercurial, observa o pesquisador. Na América do Norte, uma das fontes de contaminação por Hg é o peixe comercializado, que, calcula-se, esteja 80% contaminado. Na Suécia, em quase metade dos 83.000 lagos, onde se pratica a pesca esportiva, os níveis de Hg em peixes encontram-se acima dos limites estabelecidos como viáveis para consumo alimentar. Comunidades indígenas do Canadá também tiveram a pesca de subsistência prejudicada pela presença do metal.

Em sua participação na Conferência, Ferreira pôde perceber claramente as diferenças entre os países em relação às iniciativas e aos estágios de desenvolvimento da pesquisa sobre a poluição por mercúrio. Enquanto países, como os Estados Unidos, Canadá, Suécia, França, Eslovênia e Japão, apresentam trabalhos científicos e políticas públicas de alto nível e relevância, outros, como Suriname e Uganda, encontram-se em situações precárias. Uganda não possui nem mesmo um único detector para quantificar o elemento em seu território, podendo, atualmente, apenas conduzir o preparo das amostras, a solubilização ácida etc.; entretanto, o país depende do envio desse material para o exterior, em geral para o Canadá, para a quantificação do Hg.

Ferreira ressalta que os programas de pesquisa apresentados pelas potências mundiais incluem aspectos invejáveis de abordagem, monitorando-se o Hg em toda área territorial, em diferentes espécies biológicas, em rios, lagos e oceanos, incluindo áreas próximas e distantes da costa.

Mas, por outro lado, enquanto as emissões de Hg diminuem em algumas regiões do mundo, como nos Estados Unidos por exemplo, elas vêm aumentando rapidamente no continente asiático (provavelmente devido ao aumento da produção de energia na China, baseado na queima do carvão), elevando o nível mundial de contaminação por esse metal, que vinha decrescendo nas últimas décadas. Como decorrência dessa situação, analisa Ferreira, tem-se que, embora seja importantíssimo reduzir as emissões de Hg no âmbito regional, a poluição pode não diminuir o quanto se espera, por haver entrada do metal no sistema, “importado” de emissões distantes, devido a propriedades inerentes ao ciclo biogeoquímico do elemento.

Situação brasileira

Na opinião de Ferreira, o Brasil ocupa uma posição intermediária nessa área científica, estando capacitado a realizar análises químicas de detecção e quantificação, incluindo-se a especiação química do elemento. Há, contudo, muito ainda a caminhar no sentido do desenvolvimento de programas abrangentes e integrados de monitoramento ambiental e da substituição desse elemento químico em produtos e processos, evitando-se a emissão de poluentes. Há necessidade de maior união entre os diferentes grupos que pesquisam o mercúrio no Brasil.

Como exemplos práticos, é preciso substituir os termômetros de Hg dos hospitais, monitorar o mercúrio em espécies de peixes comerciais, reduzir o emprego da substância nos garimpos de ouro, controlar o uso do mercúrio no amálgama dentário, monitorá-lo na produção de gás e na indústria petroquímica em geral etc., finaliza Ferreira.

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* antoniosimoes@sp.gov.br, jornalista, diretor do Centro de Comunicação do Instituto de Pesca

Fonte: Jornal do Meio Ambiente

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