CEPAGRI INICIA PROJETO PARA MELHORAR PRÁTICAS AGRÍCOLAS EM CIDADES POBRES DE SP

03/05/2006

Embora seja o Estado mais rico do Brasil, São Paulo abriga 34 municípios cujos moradores apresentam carências das mais diversas ordens. Nessas localidades, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), instrumento empregado pelas Nações Unidas para medir o grau de bem-estar da população, é inferior a 0,5, semelhante aos dos países mais pobres da África. Uma das alternativas para começar a mudar esse quadro, construído ao longo de décadas, pode estar no campo. É nisso que apostam os pesquisadores do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp. A pedido do governo estadual, eles estão elaborando um sistema de planejamento e monitoramento agrícola para essas cidades. O objetivo é melhorar o desempenho do setor por meio de práticas mais adequadas e da substituição de culturas tradicionais por opcionais. “Com isso, é possível gerar renda e subsidiar o desenvolvimento social, econômico e cultural nesses locais”, explica o professor Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Cepagri e coordenador do projeto.

 

‘Governança’ vai alcançar outros setores vitais para a população

 

De acordo com ele, o trabalho faz parte de um projeto mais amplo, denominado “Governança”, que está sendo implementado pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico. Este tem por meta estabelecer um sistema informatizado que contenha informações detalhadas sobre áreas como educação, saúde, transporte, trabalho e agricultura de cada município paulista. A proposta é que esses dados sirvam de base para a execução de políticas públicas que promovam o desenvolvimento econômico e social das cidades e, conseqüentemente, do Estado. A experiência-piloto está sendo feita em Rincão e Jaboticabal. Depois de aprovada, será estendida para as demais localidades.

 


 

 

Na área da agricultura, afirma o professor Hilton Silveira Pinto, o trabalho está em pleno andamento nas cidades de Taquarituba e Itaporanga, ambas na região de Sorocaba, escolhidas para validarem o modelo. Posteriormente, o mesmo trabalho será feito nos outros 32 municípios. Segundo ele, as ações foram facilitadas porque aproveitaram elementos de dois projetos já existentes, desenvolvidos pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) e Embrapa Informática. As duas instituições, ressalte-se, participam do planejamento agrícola coordenado pelo Cepagri. “Essa cooperação tem sido fundamental para o bom andamento das atividades”, diz. A missão dos pesquisadores é, em primeiro lugar, estabelecer em nível municipal os indicadores agrícolas e socioeconômicos que definirão as práticas a serem adotadas nas 34 localidades, espalhadas por cinco regiões do Estado.

 

Mirtilo – Em seguida, eles farão um diagnóstico da produção agrícola de cada cidade, de modo a escolher as estratégias de desenvolvimento. Por último, promoverão o levantamento detalhado da variação microclimática e pedológica [do solo]. “Essas informações são importantes, pois ajudam a definir a aptidão agrícola e os riscos climáticos em cada município”, esclarece o diretor associado do Cepagri. Uma das possibilidades já cogitadas pelos pesquisadores é a substituição de culturas tradicionais, como milho e mandioca, por outras que possam gerar maiores ganhos aos produtores. Uma opção seria o plantio do mirtilo, uma pequena e saborosa fruta com características próximas às da blueberry, cultivada nos Estados Unidos e na Europa.

 

Quando madura, a fruta fica da cor da jabuticaba. Conforme alguns estudos científicos, os pigmentos responsáveis por essa coloração agem de maneira benéfica no organismo humano, combatendo os radicais livres e retardando o envelhecimento das células. “É provável que o plantio de culturas opcionais, como o mirtilo, tragam maiores lucros aos agricultores, visto que atendem aos interesses da indústria”, pondera o professor. De acordo com ele, outros produtos alternativos devem ser analisados, de forma a identificar quais se adaptariam melhor às condições climáticas e de solo dos municípios. “É possível que cheguemos à conclusão de que a menta possa se dar bem e ser muito mais rentável do que as culturas hoje existentes no Vale do Ribeira”, afirma, de forma hipotética.

 

Compromisso é disponibilizar dados e orientar agricultores

 

Um dos compromissos dos pesquisadores envolvidos no projeto é que as informações geradas pelo sistema de planejamento agrícola sejam colocadas à disposição dos interessados, em linguagem acessível, via internet. Assim, prefeituras, cooperativas e serviços de extensão rural terão acesso livre aos dados e poderão utilizá-los da maneira que considerarem mais conveniente. Do mesmo modo, o agricultor, por menor que seja, poderá tomar conhecimento das alternativas para incrementar a sua produção e, portanto, ampliar os lucros. “Nossa tarefa é fornecer elementos para que as decisões sejam tomadas com a maior margem de segurança possível. Se ao cabo de um determinado tempo a renda per capita das famílias do campo aumentar em R$ 100, 00, isso terá um efeito positivo não apenas para essas pessoas, mas para a economia das cidades como um todo, visto que esse dinheiro movimentará o comércio e outras atividades”, imagina o diretor associado do Cepagri.

 

Segundo o professor Hilton Silveira Pinto, o planejamento agrícola não se restringe ao levantamento e à interpretação das informações relativas ao setor. Também compreende a orientação aos agricultores em relação ao plantio e colheita. De acordo com ele, a introdução de novas culturas ou mesmo a mudança de práticas ligadas ao manejo dos cultivares já existentes exige a prestação de um bom serviço de assistência técnica, que será oferecido por agrônomos da Cati. Além disso, lideranças locais, representativas de variados segmentos, serão treinadas para difundir esses métodos. Pelas estimativas do diretor associado do Cepagri, a etapa piloto do planejamento agrícola deverá estar concluída até novembro.

 

A continuidade do projeto dependerá das novas diretrizes da Secretaria de Ciência e Tecnologia, cujo titular acaba de mudar. A Pasta foi assumida por Maria Helena Guimarães de Castro, professora licenciada da Unicamp, no lugar de João Carlos de Souza Meirelles. “Como se trata de uma política de largo alcance social, nossa expectativa é que os trabalhos tenham prosseguimento e cheguem a todos os 34 municípios. Em pleno século 21, é inadmissível que o Estado de São Paulo, o mais rico do país, ainda abrigue populações com o mesmo nível de carência daquelas que vivem nas nações mais pobres da África”, analisa o professor.

 

Fonte: Jornal da Unicamp 

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